sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Quem nos governa?

Assoberbados pela crise e convenientemente «mobilizados» para o trabalho, esse único e último horizonte das nossas vidas, como diria Dominique Méda, parece que nos estamos a esquecer da nossa condição de «animais políticos». E tal «esquecimento», seja inconsciente ou conveniente, está a impedir-nos de proferirmos uma interrogação fundamental: quem nos governa? Quem é que na actualidade governa os povos e os países? A resposta parece simples e evidente: são os Mercados!
O suposto era que nos países e nos povos mandassem os respectivos governos através da ciência e da arte da política, que mais não é ou deveria ser do que a arte e a ciência da condução da «pólis. Suposto, sim, sem dúvida, mas não a realidade que se nos apresenta. Basta estarmos atentos e escutar as vozes e os discursos - que nos entram todos os dias pelas nossas casas via comunicação social - que, em uníssono, proferem os líderes políticos, portugueses e europeus: quem manda, quem governa, quem dita as leis, as prioridades e opções dos orçamentos, quem impõe, mais ou menos discretamente, servindo-se de agentes bem colocados nas instâncias do poder, são os Mercados, agora denominados «mercados da dívida»...
Alguns responderão que temos de pagar aos nossos credores. É certo. Mas não será precisamente por isso - isto é, por nos estarmos continuamente a endividar e por termos, nós e os nossos filhos e netos, que arcar com esse enorme peso e ameaça que impendem sobre o nosso destino colectivo - que importa recuperar a cidadania da política, até para nos podermos pronunciar sobre o próprio endividamento constante e sobre as mudanças que, talvez, se imponha que façamos no nosso viver colectivo? Por outras palavras: teremos a coragem e a ousadia de sermos homens e mulheres do nosso tempo, tomando a palavra - no sentido da interacção que transcende a mera e fatal redução ao estado de «trabalhadores» -, palavra que mais não é do que o verdadeiro exercício do poder?
Vamos, acaso, deixar-nos resvalar para o abismo, individual, familiar e colectivo, do atomismo individualista para onde nos querem empurrar os «senhores» dos povos? Vamos permitir que, de forma lenta, lapidar mas bem calculada, tentem «fabricar-nos» como um «um novo homem», ou seja, aquele que, mergulhado no anonimato humilhante e desumano do massificado «homo economicus», se vai reduzindo ao mero binómio do «produtor-consumidor»? A este «destino» só poderemos resistir exigindo uma verdadeira regeneração da política.
António Assunção